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12 razões para genealogizar

  1. Validar  histórias de família — determinar se as histórias de família sobre os seus ancestrais são verdadeiras.
  2. Compreender um fato da História  — obter melhor compreensão do envolvimento de um ancestral em um fato histórico.
  3. Explorar a contribuição das famílias à construção do País — pesquisar a resiliência das famílias que sobreviveram às vicissitudes de guerra, imigração, pobreza ou escravidão; estudar o sucesso na integração além das fronteiras raciais ou nacionais; investigar conquistas empreendedoras: comerciais, agrícolas, educacionais, industriais etc.
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Aviso Importante

Os editores deste website não fazem pesquisa genealógica para terceiros. Mas têm muito prazer em compartilhar o que aprenderam ao longo de suas pesquisas dentro e fora da Internet. Daí a razão deste site!



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O que é Genealogia?

Genealogia é o ramo da História que se dedica ao estudo das famílias, à sua origem, dinâmica e evolução, descrevendo a sucessão de gerações, em sentido ascendente ou descendente. Sempre que possível, o estudo traça os dados vitais e  as biografias dos seus membros. Portanto, Genealogia estuda a história das famílias.

Embora seja ciência auxiliar da História,  sua importância reside na descrição de indivíduos, independentemente de suas relevâncias.  Isso porque todos esses indivíduos construíram suas vidas inseridos na sociedade a que pertenciam e vivenciando a mentalidade de suas épocas.   


O que não é Genealogia............

Genealogia, enquanto estudo social,  não é investigação genética, não é ensaio de proselitismo religioso, não é descrição de mitos e não é foco
de arbitragem moral. É História das Famílias... 

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Dicas de Ocasião

Pode ser que sim, pode ser que não....
Aqui, três artigos esclarecedores para quem acha  acha que seus Ferreira, Machado, Pereira, Oliveira, Carvalho, Teixeira  tem origem em cristãos-novos.  
E que provam que sem uma boa investigação genealógica e histórica  não é possível afirmar nada!

Nomes de árvores e animais correspondem a sobrenomes judeus?

por Paulo Valadares*



Não há sobrenome cristão-novo, mas um sobrenome ibérico,  usado por
cristãos-novos, e que muitas vezes foi o mesmo usado também por cristãos-velhos, ciganos, mouriscos, escravos, ex-escravos, indígenas... 


Paulo Valadares, historiador,  autor de A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX (Ed. Fundação Ana Lima, 2007) e editor do Boletim do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro.

É comum ouvir que certos sobrenomes usados por lusodescendentes identificam origem judaica, herança de ancestrais cristãos-novos. De acordo com esta explicação popular, sobrenomes como Lobo ou Pereira identificariam a procedência. Será verdade? Para responder, é bom que se conheça um pouco do desenvolvimento da onomástica judaica.


Os judeus sempre usaram, para se identificar, um patronímico, o nome do pai. É só verificar no Velho Testamento – a Bíblia Hebraica – os nomes dos personagens como Fulano ben (filho de) Sicrano. Hoje eles são usados apenas nas cerimônias religiosas.


 Os sobrenomes foram incorporados primeiro na Península Ibérica e depois, por influência napoleônica, fora dela. No mundo ibérico, já no século XIV, havia judeus que se identificavam com prenome bíblico e um sobrenome de variadas origens geográficas – Abravanel, Amado, Arruda, Cavaleiro, Cohen, Crespim, Franco, Navarro, Negro, Pinto, Toledano, Valentim etc –, que, com o passar dos anos, foram incorporados aos patrimônios familiares.


A permanência dos judeus, como convertidos, a partir do século XV, tornou obrigatório o recebimento de novos nomes e sobrenomes sem que houvesse um ordenamento jurídico para sua aquisição. Somente os prenomes tradicionalmente usados, como Abraão, Isaac e Jacó foram convenientemente abandonados, mas como o objetivo era a incorporação desta minoria à população majoritária, não havia sinais que os distinguissem pela onomástica. Os convertidos que se renomeavam também nada traziam do passado. O objetivo era desaparecer na massa circundante.   

Lenda tem base em discursos religiosos


Mas como encontrar os sobrenomes utilizados pelos cristãos-novos e seus descendentes se eles desapareceram na população geral? Convém consultar a documentação produzida pela Inquisição, como as listas de penitenciados e cerca de 40 mil processos movidos contra cristãos-novos entre os séculos XVI e XVIII. Lá está a maioria dos sobrenomes usados pelos portugueses. Do simples Santos ao dinástico Bragança. Em alguns casos, é possível encontrar a autoridade inquisitorial e o réu com o mesmo nome de família, sem que eles tenham vínculos de parentesco entre si.

O desconhecimento desse passado levou pesquisadores amadores a buscarem uma teoria para localizá-los. Baseados no discurso religioso, principalmente nas bênçãos aos filhos de Jacó (Gênesis, 49:1-33), chegaram à conclusão de que nomes de plantas e animais correspondem aos sobrenomes judeus, mas sem qualquer fundamentação na realidade.

É impossível descobrir a origem de um lusodescendente só pelo nome de família. É equivocado afirmar que alguém tem origem judaica só por ter um sobrenome como Barata, Bezerra, Carneiro, Carvalho, Cordeiro, Falcão, Figueira, Leão, Leitão, Lobo, Oliveira ou Pereira. A afirmação não se sustentaria na documentação produzida durante 300 anos. Não há sobrenome cristão-novo, mas um sobrenome ibérico usado por cristãos-novos, que muitas vezes foi o mesmo usado também por cristãos-velhos, ciganos, mouriscos,   indígenas... (**)

*    Paulo Valadares, historiador, mestre em História Social (USP),  a utor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX" (Fundação Ana Lima, 2007) co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.  Também é editor do Boletim do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro. ( acima reprodução integral do artigo publicado na edição número 73, em outubro de 2011, na Revista de História da Biblioteca Nacional)  e blogueiro:  A Besta Esfolada
Acima reprodução integral de seu  artigo,  
publicado na edição número 73, em outubro de 2011, na Revista de História da Biblioteca Nacional. 

**  Grifo em negrito e  dos editores de Brava Gente Brasileira.   

O mito sobre a origem de
sobrenomes de judeus convertidos

Nomes de plantas e árvores, como Pinheiro e Carvalho, não pertenceram
só a cristãos-novos

por Daniela Kresch, especial para O Globo 
atualizado em 16/06/2012   

Na Bahia do século XVII, o professor de um colégio jesuíta perguntou o sobrenome de um de seus alunos. A resposta foi inusitada: “Qual deles, o de dentro ou o de fora”? A história, contada pela historiadora da USP Anita Novinsky em sua dissertação “O mito dos sobrenomes marranos”, exemplifica o dilema dos cristãos-novos brasileiros, nos primeiros séculos do país. Expor ou não o sobrenome da família fora de casa, sob risco de ser identificado pela Inquisição e acusado do crime inafiançável de “judaísmo”? O temor e a delicadeza do tema fizeram com que a genealogia dos descendentes de judeus portugueses no Brasil fosse envolta, por séculos, numa bruma de mitos e ignorância. Nos últimos anos, no entanto, pesquisadores têm revelado surpresas sobre os sobrenomes marranos no Brasil

No final do século XV, os judeus compunham entre 10% e 15% da população de Portugal — somando os cerca de 50 mil locais e os quase 120 mil que cruzaram a fronteira em 1492, quando os Reis Católicos Fernando e Isabela expulsaram toda a população judaica da Espanha. Nos primeiros dois séculos depois do Descobrimento, o Brasil recebeu boa parte dessa população, os chamados cristãos-novos (ou “marranos”, pelo apelido pejorativo da época), convertidos ao cristianismo à força, por decreto de Dom Manuel I, em 1497.  Historiadores concordam que um em cada três portugueses que imigraram para a colônia era cristão-novo.

Até recentemente, acreditava-se que esses judeus conversos abandonaram seus sobrenomes “infiéis” para adotar novos “inventados” baseados exclusivamente em nomes de plantas, árvores, frutas, animais e acidentes geográficos. Assim, seria fácil. Todos os portugueses com os sobrenomes Pinheiro, Carvalho, Pereira, Raposo, Serra, Monte ou Rios, entre outros, que imigraram para o Brasil após 1500 devem ter sido marranos, certo? Errado.

Em minhas investigações, não encontrei prova documental de que nomes de árvores, animais, plantas ou acidentes geográficos tenham pertencido apenas ou quase sempre a marranos — afirma Anita Novisnky, uma das maiores autoridades no assunto.
O que causa confusão, segundo Novinsky, é o fato de que os sobrenomes adotados pelos cristãos-novos eram os mesmos usados por cristãos-velhos, alguns por nostalgia, outros por medo de perseguições. Afinal, no Brasil, os marranos foram perseguidos por 285 anos pela Inquisição portuguesa. Quem demonstrasse apego à antiga religião poderia ser condenado à morte na fogueira dos “autos de fé”, as cerimônias de penitência aos infiéis.
Como identificar, então, quem era marrano? A mais importante pista está justamente nos arquivos da Inquisição. Aproximadamente 40 mil julgamentos resistiram ao tempo, 95% deles referentes a crimes de judaísmo. Anita  Novinsky encontrou exatos 1.819 sobrenomes de cristãos-novos detidos, só no século XVIII, no chamado “Livro dos Culpados”. Os sobrenomes mais comuns dos detidos eram Rodrigues (citado 137 vezes), Nunes (120), Henriques (68), Mendes (66), Correia (51), Lopes (51), Costa, (49), Cardoso (48), Silva (47) e Fonseca (33).  

— A Inquisição anotava todos os nomes dos detidos cuidadosamente, como se fosse a Gestapo nazista e mantinha uma relação de bens de cristãos-novos para confiscar — diz Anita.
Isso não quer dizer, no entanto, que todas as famílias com esses sobrenomes eram marranas. Nas investigações, sob tortura, os detidos diziam tudo o que os inquisidores queriam ouvir, acusando vizinhos, empregados e parentes “inocentes”. Fora isso, os sobrenomes eram realmente comuns.


— Não havia nenhum sobrenome exclusivo de cristãos-novos. Até porque eles mudavam sempre que podiam, além de adotarem nomes compostos. Muitos irmãos e esposos adotavam até mesmo sobrenomes diferentes, só para confundir — explica o historiador israelense Avi Gross


O historiador paulistano Paulo Valadares, autor do “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes”, no qual destaca 14 mil sobrenomes oriundos de judeus da Península Ibérica, aponta para mais uma complicação: o da mestiçagem brasileira  (ver atigo acima). A grande maioria dos cristãos-novos se misturou depois de uma ou duas gerações com outras culturas e raças.

— Poucos conseguiram manter as tradições judaicas por muito tempo. Algumas famílias tentaram, se isolando em algumas áreas do país, principalmente no Sertão nordestino, e praticando a endogamia (casamentos dentro da família).
Para os aficionados em genealogia, um novo site na internet, o “Name your roots” (que tem versão em português), pode ajudar a descobrir as raízes. No portal, criado há três meses por dois religiosos israelenses, é possível obter explicações e bibliografia gratuitamente sobre sobrenomes marranos comuns no Brasil.


Nota dos Editores de Brava Gente Brasileira.:  No entanto, esse site não possui nenhuma autenticidade acadêmica ou genealógica

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Mas Paulo Valadares alerta que é preciso ir além: identificar se há antepassados portugueses que chegaram ao Brasil nos séculos XVI ou XVII ou se foram citados nos anais da Inquisição até o século XVIII, se a família se estabeleceu em alguma região específica e se guarda tradições “estranhas”. 

O documentário “A estrela oculta do Sertão”, de Elaine Eiger e Luize Valente, traz exemplos de algumas dessas tradições, que ainda sobrevivem no Nordeste: olhar a primeira estrela no céu, não comer certos alimentos como carne de porco, não misturar carne com leite, vestir a melhor roupa na sexta-feira, enterrar corpos em “terra limpa” (envoltos apenas numa mortalha), rezar numa língua estranha e colocar pedras em túmulos.
— Depois de conviver com comunidades do interior do país, percebi como os descendentes de marranos praticam tradições judaicas no dia a dia — conta Luize , que lança, em agosto [[2012], o romance “O segredo do oratório” (Record), contando a saga de uma família de cristãos-novos no Brasil.
O médico paraibano Luciano Canuto de Oliveira, que voltou ao judaísmo depois de descobrir suas origens marranas, define sua identidade de modo parecido com a resposta do aluno do colégio jesuíta, há quatro séculos: “Ser marrano é ser judeu por dentro e católico por fora”.

  • Fonte:  O Globo   
  • Grifos dos editores do site Brava Gente Brasileira
  • Ver abaixo a tradução do ensaio de  Anita Novinsky, citado na reportagem 


O mito dos nomes marranos

por Anita Novinsky

Texto Publicado originalmente na   "Revue des Études Juives",  Tome 165  —    Juillet - 2006-Décembre —Fascículo 3-4    Pages    445-456.

Traduzido do inglês por Maria Fernanda Alves Guimarães — editora de Brava Gente Brasileira 

A historiografia romântica sobre os marranos e marranismo criou uma série de mitos em relação aos nomes adaptados pelos judeus durante e após a sua conversão forçada em 1497 em Portugal. O crescente interesse em conhecer a história sefardita, principalmente após 1992, a mente de pessoas subnutridas com fantásticas histórias e lendas, tudo isso  fez  o capítulo marrano especialmente atraente.


O maior impacto veio quando  alguns  historiadores tentaram provar a assimilação ao catolicismo pelos conversos, ou cristãos-novos e encontraram os cripto-judeus:   gente que queria morrer em kiddush-hashem, ou seja, respeitando os preceitos judaicos. Os historiadores portanto encontraram uma realidade  muito diferente.   Ao analisar os julgamentos da Inquisição, não podemos ter certeza de que as confissões de judaísmo eram verdadeiras. Sob tortura[i],  o Anussim confessava tudo o que os inquisidores queriam ouvir e chegavam a acusar  amigos, vizinhos, familiares. Quando examinamos os documentos de maneira mais apurada, percebemos que os termos das confissões eram sempre as mesmas respostas, idênticas palavras e frases repetidas ao longo de três séculos.


A divulgação indiscriminada dos mitos relacionados com a história marrana é perigosa, e dentro de alguns anos, isso pode emprestar  distorção à  pode   dos descendentes dos Anussim.  Pesquisas sobre a história sefardita ― baseadas integralmente em manuscritos até então desconhecidos ― estão sendo  feitas na Universidade de São Paulo e começam a abrir  novas perspectivas para a história marrana, o que nos permitirá compreender melhor o multifacetado fenômeno do marranismo[ii].

Sobrenomes de Judeus: raras referências


Em relação aos nomes adotados pelos judeus durante as conversões de 1497, temos raras referências diretas. Crônicas de cristãos e judeus deixaram relatos preciosos sobre o que aconteceu durante aqueles tempos difíceis mas existe um "silêncio" sobre os nomes patronímicos judaicos.

O rei Dom Manuel autorizou que determinados nomes utilizados exclusivamente por famílias nobres poderiam ser dados a,os judeus convertidos. Ao adotar  nomes como Noronha, Meneses, Albuquerque, Cunha Almeida, Pacheco, Vasconcelos, Melo, Silveira, Lima ... abriram-se novas linhagens  genealógicas aos cristãos-novos e durante séculos eles mantiveram sua ligação com as raízes judaicas, mesmo espalhados pelo império português.

Os marranos frequentemente expressavam em segredo os seus nomes judaicos e os transmitiam em sigilo aos seus descendentes. Os dúplices nomes revelam também a dupla identidade de pessoas que viviam num mundo de terror. Esses nomes [judeus], por vezes, guardavam significados e histórias que foram transmitidas oralmente de uma geração para outra.

A simbologia dos nomes marranos repetia exatamente a tradição simbólica portuguesa e eles representam o mundo animal, como Leão, Carneiro, Lobo, Raposo (raposa), Coelho; o mundo vegetal como Pinheiro, Carvalho, Pereira (a árvore de peras), Oliveira (árvore das olivas) e, por vezes, características físicas como Moreno (pele escura), Negro (preto), Branco (cor branca); características geográficas como Serra (Serra), Monte (Montagem), Rios (rios), Vales (vales) e também as ferramentas e ofícios[iii].

O mais comuns entre os nomes marranos foram aqueles concebidos relativos as aldeias e cidades, como Miranda, Chaves, Bragança, Oliveira, Santarém, Castelo Branco. O português também tinha o hábito de feminilizar os sobrenomes no masculino, mas no Brasil isto apareceu muito raramente.

Os  mais comuns entre os nomes marranos foram aqueles concebidos relativos as aldeias e cidades, como Miranda, Chaves, Bragança, Oliveira, Santarém, Castelo Branco. O português também tinha o hábito de feminilizar os nomes dos homens, mas no Brasil isto aparece muito raramente.

Na Inquisição, como sabemos, os judeus foram perseguidos em uma base familiar, e esta foi uma das razões pelas quais os marranos adotaram simultaneamente dois ou três três nomes, para que o trabalho dos agentes inquisitoriais se tornasse mais difícil e os riscos para as famílias menores. Nos livros grandes, onde os inquisidores registravam os nomes de todos os prisioneiros suspeitos de judaísmo, podemos encontrar muitas repetições relacionadas com os nomes, o que deixavam os inquisidores confusos e não conseguiam identificar os suspeitos.

Era comum encontramos membros da mesma família como pai, mãe, avós, irmãos, usando nomes diferentes um do outro. Também era comum entre os marranos para saltar uma ou mais gerações, e voltar novamente para o antigo nome avô, Embora este costume também existia entre o Português.

As crianças marranas, quando atingiam os 12 ou 13 anos de idade,  eram ensinadas acerca dos os perigos que teriam de enfrentar por serem descendentes de judeus e elas também eram informadas sobre os diferentes nomes usados pela família.
Na Bahia, no século XVII, encontramos um caso interessante. No Colégio da Companhia de Jesus, o professor perguntou a um menino qual era o seu nome, ao que ele respondeu:
 — "Qual deles, o interior ou o exterior"[iv]   Frequentemente, a memória da origem judaica perdeu-se e os marranos ficavam sabendo através de outros que eles eram cristãos-novos. Às vezes, quando inquiridos, eles respondiam cheios de orgulho: “ — Cristãos-novos, graças a Deus!” [v]
 

Durante a Idade Média, quando os judeus viveram em Portugal e a sociedade era relativamente livre, eles usavam principalmente prenomes retirados do Velho Testamento, mas os sobrenomes eram portugueses, como Abraão Franco, Isaque Querido, Moisés Pinto ou Moisés Lobo.

Logo após a conversão forçada, quando o hebraico e os nomes em  língua hebraica foram proibidos, ainda encontrávamos os hebreus transmitindo seus nomes secretamente entre algumas famílias. Mas depois de um ou dois séculos, principalmente quando eles já estavam no Novo Mundo, essa memória se perdeu. Eu nunca encontrei em nenhuma das crônicas daquela época avaliações acerca desse fato, sobre o que isso pode ter representado para os judeus, sobre o quanto pode ter sido traumática a experiência de serem forçados a abandonar os seus nomes tradicionais de família.  


Quais os sentimentos e emoções os judeus experimentaram quando tiveram  de mudar suas identidades às quais estavam vinculadas por séculos até seus ancestrais?  Entendemos naturalmente que essas "mudanças" na vida judaica não ocorreram  de um momento para outro, e temos que estudá-las considerando cada situação específica.


Cristãos-novos têm nomes idênticos aos dos cristãos-velhos


Entre as numerosas lendas construídas durante séculos em relação ao nomes marranos, ouve-se com frequência  que os judeus adotaram como sobrenomes  os nomes de seus padrinhos, de regiões, aldeias, plantas, árvores, frutas, acidentes geográficos. Pode ser que essas lendas possuem alguma base, contudo no atual estágio das pesquisas  é ainda difícil separar fantasia da realidade. Para os dramas da conversão e da destruição do judaísmo ibérico, é importante reunir os resultados de novas investigações. Também é importante pesquisar os arquivos  paroquiais em cada aldeia portuguesa onde os judeus viveram durante o período de conversão forçada. 

A principal fonte para este estudo é o "Arquivo do Tribunal de Justiça do Santo Ofício  da Inquisição",  em Portugal.  A Inquisição ordenou o registro dos nomes de cada cristão-novo  português suspeito de heresia judaica  no  chamado "Rol dos Culpados".   Esse livro é a fonte mais importante que temos para  saber os nomes marranos, principalmente daqueles que permaneceram em Portugal e se espalhoaram  pelo Império Português.

O que gera uma grande confusão é o fato de os nomes e sobrenomes dos cristãos-novos serem exatamente os mesmos daqueles usados por cristãos-velhos. Como podemos diferenciá-los? Uma vez que não se sabe, até hoje, de qualquer documento português que nos explique especificamente quais os critérios utilizados na aprovação dos nomes,  resta-nos o único caminho possível, agora,  que é o de investigar  a frequência desses nomes nos registros inquisitoriais.        [vi] 

Sabemos que grandes quantidades de manuscritos pertencentes ao Santo Ofício foram perdidos nos últimos séculos, durante o transporte, da Biblioteca Nacional  — onde foram anteriormente mantidos, ano Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e também devido  a inundações  ou deterioração natural, dadas as condições precárias  do Arquivo Nacional. 


Presentemente, existem cerca de 40.000 documentos de acordo com alguns estudiosos. Quase 80% desses julgamentos se referem do crime ao Judaísmo. Mas só vamos poder falar em termos de estatísticas depois que todas as pesquisas e documentos forem examinados. Este trabalho vai demorar ainda alguns anos de investigação. 

Brasil recebeu mais cristãos-novos
de Portugal que qualquer outro lugar

Sobre o Brasil, temos provas mais precisas. O Brasil recebeu a maior número de imigrantes cristãos-novos vindos  de Portugal, mais do que qualquer outra região do mundo. Os arquivos portugueses registram uma quantidade fantástica de documentos que testemunham a emigração.

Como fonte primária examinei, para este ensaio,  o   “Rol dos Culpados”, no qual  encontrei registrados 1.819 nomes de marranos presos ou suspeitos de judaísmo que viveram no Brasil no século XVII, sendo 1.098 homens e 721 mulheres [vii].  Vimos que 1.076 brasileiros foram presos durante o período colonial e o maior percentual deles,  acusado do crime de judaísmo, foi preso e recebeu a pena capital  [viii].

Os inquisidores sabiam precisamente  — através de denúncias e por intermédio de seus agentes (os espiões do Santo Ofício) —  quais eram os exatos "suspeitos".    Os que deixavam o Reino e saíam sem permissão especial da Inquisição tinham todos os seus bens confiscados pela Coroa de Portugal.

Quando eu encontrei pela primeira vez, em 1965, o  “Rol dos Culpados”  no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em  Portugal, eu imediatamente notifiquei ao Dr. Daniel Cohen  que  à altura  era  o diretor do Arquivo Central para a História dos Judeus,  em Jerusalém, sucedido pelo  Dr. Aryeh Segal. Eles imediatamente providenciaram toda a  microfilmagem do “Livro”. Infelizmente,  há ainda documentos  apresentando grandes dificuldades para o historiador.

Aqui nesse artigo,  não vou referir aos descendentes dos "Anussim", aqueles que retornaram depois ao Judaísmo na Europa, na África do Norte  ou no Levante.  Sua história foi frequentemente escrita, seus nomes são conhecidos e já pertencem à História Judaica.  O objetivo da minha contribuição tende para o conhecimento dos descendentes  dos  "Anussim"  esquecidos pelos historiadores:   os marranos brasileiros que, durante 285 anos sofreram discriminação e perseguição da Igreja Católica.


Nomes que aparecem no Rol dos Culpados entre 1700 e 1761  


 Neste artigo vou transcrever os nomes dos brasileiros que perseguidos pela Inquisição  de 1700  a 1761 (principalmente entre 1710 e 1736) e indicar a frequência com que esses nomes apareceram nos registros. 

NUNES aparece 120 vezes mencionado no "“Livro dos Culpados” ". É também o nome dado ao município e distrito de Vinhais, Diocese de Bragança, Portugal, mas também pode ter uma origem espanhola. 

RODRIGUES aparece entre os brasileiros 137 vezes. Tem origem em "filho de Rodrigo" e pode ter origem portuguesa ou espanhola. Ele apareceu em Portugal por volta dos séculos 14 e 15, mas havia muitos Rodrigues[ix] também entre os judeus que, no final do 16 e do início da 17 século, emigraram da Espanha para Portugal. Embora não deva haver quaisquer laços de sangue entre eles.
Aqui vale a pena destacar o curioso caso de Abin Rodrigues, em Espanha, fato que continua a ser popular na História, de  como ele era ao mesmo tempo, um judeu, um cristão e um muçulmano...

HENRIQUES é mencionado 68 vezes. A origem do nome é bem diversa,  entretanto,  desde 1454  existia em Portugal uma moeda  de ouro de 22 quilates,  apelidada Henriques. O sobrenome se tornou muito comum  tanto entre  os nobres  como entre os marranos.  

MENDES é mencionado 66 vezes. Ele tem diversas origens e também  surge  a partir do   patronímico Mendo. É muito comum entre os cristãos-novos.  

CORREA é mencionado 51 vezes. Ele  identifica um   português de velha estirpe que se  uniu a  uma família muçulmana de Ormuz.

LOPES é mencionado 51 vezes. É um patronímico que foi adotado por  várias famílias diversas. Nós encontramos muitos  Lopes em Ciudad Rodrigo, Espanha,  cidade de   fronteira  e que sabidamente era uma das que pela qual os judeus, expulsos da Espanha em 1492,  entravam em Portugal.    Lopes também aparecem durante o reinado de Afonso V.     Vale notar que LOPES não tem cruz em seu brasão de armas, mas duas estrelas, cada um dos seis pontos, o que pode sugerir significado.

COSTA é mencionado 49 vezes. É uma pequena freguesia que pertence ao Concelho da Comarca de Guimarães. É um sobrenome portuguêsmuito antigo, conhecido desde os tempos do primeiro rei de Portugal,  D. Afonso Henriques, que se tornou depois é muito comum entre os cristãos velhos e novos.  

CARDOSO é mencionado 48 vezes.  Como sobrenome,  já existia desde 1170. Foi o nome de um lugar na freguesia de S. Martinho de Mouros. É muito comum entre os cristãos-novos no passado assim como entre os judeus sefaraditas em nossos dias.  

 SILVA é mencionado 47 vezes. Era uma antiga paróquia do distrito de Barcelos, e que pertencia a uma das famílias mais prestigiadas da Península Ibérica. Segundo a lenda, originou-se a partir do  Rei de León (Espanha)   É o sobrenome mais comum da língua portuguesa e muito presente entre pessoas comuns e também entre os cristãos-novos.

 FONSECA é mencionado 33 vezes no “Livro dos Culpados”. Origem controversa. Pode  ter raiz espanhola, mas aparece entre as mais antigas famílias portuguesas. 

 PAREDES é nome mencionado 32 vezes. É uma pequena vila não muito longe da cidade do Porto, na margem  direita do rio Douro. Há também uma velha  fortaleza com este nome.  

 ALVARES é mencionado 30 vezes. É uma freguesia portuguesa do Concelho de Góias,  distrito de Arganoil,  que pertence à diocese de Coimbra.  

 MIRANDA é mencionado 28 vezes. É nome muito comum em Portugal e no Brasil. Os judeus podem ter adotado a partir da famosa aldeia judaica Miranda. No entanto, a origem do nome remonta ao dos tempos de o rei D. João II, quando um sacerdote, enviado à França, voltou com uma senhora chamada D. Mécia Gonçalves de Miranda, que ordenou que seus filhos e descendentes devessem todos receber o sobrenome  Miranda.  

FERNANDES é mencionado 28 vezes no “Livro dos Culpados”. É um dos  mais frequentes patronímico e também o mais popular entre os marranos no Brasil. O sobrenome significa "filho de Fernando" (em espanhol é Fernandez e Fernandes em português). A origem remonta aos tempos dos Visigodos e ele aparece entre os judeus desde o século XV, mas muitas famílias que adotaram este nome não têm relações de parentesco entre si.  

AZEREDO é mencionado 25 vezes. É o lugar onde cresce cereja louro cresce. Segundo alguns genealogistas, o topônimo Azeredo é um lugar que pertencia à freguesia de Leça do Balio (norte de Portugal), concelho de Matosinhos na Província do Minho.

 VALLE é mencionado 24 vezes. Significando  uma planície entre duas montanhas ou ao sopé de uma montanha, é sobrenome de  uma  velha linhagem portuguesa, mas os judeus também  começaram a  adotá-lo no século XV. Pode ter relação com o fato de que os judeus que emigraram da Espanha entraram em Portugal através da as fronteiras ao norte de Ciudad Rodrigo e foram forçados a viver em tendas construídas no vale. Os judeus permaneceram no vale durante três anos. Na tradição, popular,  este lugar é conhecido como  "Vale das Tendas".  

BARROS é mencionado 22 vezes. Até o século XV, foi escrito em diferentes maneiras, incluindo Barrios. Ele aparece entre os sefaraditas, na Holanda.  

 DIAS é mencionado 22 vezes, este vem do patronímico de Diogo  (Diego em Espanha)  e muitas famílias sem correlação de sangue utilizaram o mesmo sobrenome. 

 XIMENES é mencionado 18 vezes. De acordo com alguns autores, pode ter origem italiana  tendo começado com uma Ximenes André de Florença, que foi para Portugal. Contudo o nome já existia em Navarra. Na Enciclopédia Judaica ele é mencionado como um nome hebraico.  

FURTADO aparece 5 vezes. Segundo alguns autores, há uma curiosa lenda sobre o nome de Furtado, enquanto  sinônimo de  "roubado",   remontando  aos tempos de D. João II  que,  já na condição de rei,  ordenou que todas as crianças judias,  entre 2 e 10 anos deviam ser tomadas dos pais e enviadas  para a ilha de São Tomé  [então colônia portuguesa), onde muitas delas pereceram[x].


 Sobrenomes marranos com outras raízes

 Também encontramos judeus já entre os primeiros colonizadores da Ilha dos Açores e seus nomes  aparecem também no Brasil. Como exemplo: as famílias Brum e Colaça ou Calaça

O primeiro Brum (Wilhelm van der Bruyn) nasceu em Maestrich e depois do seu casamento, mudou-se para a ilha da Madeira. Há Bruns também na Ilha  Terceira e Faial.  Bruns  uniram-se a famílias que já viviam nos Açores e deram  origem a ramos como  Brum  da Silveira e Brum  da Cunha. Uma família muito importante Brum viveu no  Brasil no século XVIII e alguns membros desta família foram presos pela Inquisição.  

No Brasil colonial, os judeus só puderam praticar livremente sua religião durante o período em que os holandeses ocuparam o Nordeste do  País  (1630-1654).  Em Pernambuco,  havia duas congregações que registraram os nomes dos seus membros judeus. Entre eles, estavam aqueles que chegaram ao Brasil em conjunto com os holandeses, já nascidos como os judeus ou reconvertidos ao judaísmo em Amsterdam, e levaram nomes judaicos. Havia também esses nomes que pertencia à mais antiga da população cristã-nova e que, após a chegada dos holandeses, tentaram se reconverter ao judaísmo.  Esses Anussim  ora  mudaram  seu primeiro nome para adotar nomes hebraicos,  ora acrescentavam um sobrenome judeu aos seus  apelidos portugueses:  Duarte Saraiva tornou-se David Senior Coronel (ele adotou o nome de um de seus antepassados), Dr. Fernando Patto tornou-se Abraão Israel Diaz, Luís Dormido tornou Daniel Dormido; Simão Franco Drago adotou o nome de Isaac Franco Drago, Francisco de Faria foi chamado Jacob de Faria, João de La Faye ficou Aron de la Faye; Gaspar Rodriguez tornou-se Abraão Rodrigues [xi].  

 

Em minhas pesquisas eu não encontrei nenhuma prova documental de nomes de árvores, frutos, plantas e acidentes geográficos pertencem unicamente aos marranos.


Em minhas pesquisas eu não encontrei nenhuma prova documental de nomes de árvores, frutos, plantas e acidentes geográficos pertencem unicamente aos marranos. Os nomes mais comuns de marranos que encontrei no Brasil estão ligados às cidades, vilas, províncias: seus lugares de origem familiar.  Muitos  conversos   que fugiram de Espanha e encontraram refúgio em Portugal ou outros países da Europa ou da América adotaram nomes que lembravam seu local de procedência,  na região de  Castela.


A transformação de nomes marranos 


É bastante interessante também acompanhar a transformação dos nomes marranos  após o retorno  ao Judaísmo em  Holanda, Inglaterra, Itália, França, Turquia e Marrocos.  Na Inglaterra, encontramos  Lord Monfort, um membro da família Monfort que  fugiu  da Bahia quando a Inquisição prendeu o chefe-de-família, o médico Manoel Mendes Monforte.  A família Brandão deu origem a Lord Brandon.  Há ainda os  Luna, Gomes, Azevedo, Rodrigues, Dias   que se tornaram os pais fundadores da  "Congregação de Londres" em 1669. Também muitos marranos se estabeleceram na Turquia, onde encontramos nomes que lembram a terra de suas origem: León, Callvo, Zamarro, Toledano.

 Judeus marroquinos emigraram para o Amazonas no início do século  XIX. Sua procedência era  Espanha, Norte da África, e até de outras regiões  do Brasil,  muitos carregando prenomes nomes hebraicos, mas com sobrenomes de origem portuguesa:  Samuel e Isaac Aguiar, Marques Levy, Abraão ou Salomon Salvador  Pinto.  Essas pessoas   volta e meia preservavam nomes  totalmente portugueses como: Armando Soares,  Miguel Soares, José de Souza Baliero, Elis José Salgado.  

Também nas Ilhas Baleares, espanhóis e portugueses empregaram sobrenomes oriundos de suas cidades, assim como nomes de cores e de árvores. De acordo com as lendas, essas famílias teriam raízes judaicas[xii]

A propaganda anti-judaica inculcada pelo clero católico na mente dos portugueses condicionou  uma mentalidade absoluta, e até mesmo aqueles homens do século XVIII que tomaram  posição contra os métodos do Santo Ofício   foram influenciados por esses preconceitos. Podemos dar como  exemplo  o de um famoso refugiado português,    conhecido como Cavaleiro de Oliveira, que   deixou importantes escritos contra o Santo Ofício. Em seu trabalho Recreação Periódica , ele confirma  que "não há um único nome de família,  em Portugal,  que não   pertença, simultaneamente  à mais alta nobreza e à classe  mais baixa”.      Bragança, Pereira, Mascarenhas  foram nomes considerados do mais "sangue puro", mas  são encontrados também entre a burguesia  portuguesa. Um fabricante de calçados  é chamado  João de Mascarenhas, exatamente como o Marquês de Gouveia... Um zé-ninguém a competir com Marqueses e Duques. [xiii]

Vivendo na Inglaterra, o Cavaleiro de Oliveira  era familiarizado com  os portugueses que chegavam todos os dias   de Portugal. Entre  esses chegados,  ele encontrou gente marrana com nomes  que pertenciam a famílias famosas,  como  Pereira, Carvalho, Andrade etc.  Mesmo que se tenha uma mentalidade esclarecida tão crítica  quanto  ele, ninguém está acima do do seu próprio tempo.  Assim, ele  tentou salvar "seu sangue", mostrando que raros eram os cristãos-novos que levavam o nome de "Oliveira".  E ainda comenta,  ironicamente,  que "os ignorantes da Inglaterra e da Holanda pensam que aqueles sobrenomes pertencem apenas aos judeus, e  imaginam  que  todo português  é judeu”[xiv].  


A preocupação com o "sangue puro" 


É interessante notar o quão forte é, entre os portugueses, a preocupação com a limpeza de sangue da sua linhagem.   Os seguintes versos exprimem essa obsessão:

 

Para  conhecer os meus antepassados

Cheio de entusiasmo, investiguei

Comecei pelos registros para guiar

E dali passar ao tanto afim

 

Oh! Como era bom saber que atrás de nós

Houve nomes ilustres, boa gente

Morgados militares, enfim avós

 

Que sempre se trataram nobremente

Com escravos, cavalos, criados

E toda a mais fidalga ostentacão

Sem nunca terem sido infamados

De ter sangue de infecta nacão[xv].


Conclusões 

Depois de ter navegado num mar de incertezas, o que conseguimos  saber  hoje sobre os nomes marranos? Com base nas fontes inquisitoriais, podemos  afirmar que no Brasil: 

  1. A maioria dos sobrenomes marranos reflete as cidades ou aldeias de onde vieram.  

  2. A maioria dos nomes marranos foi  tomado a partir da velhas famílias aristocráticas.

  3. Praticamente todos os nomes  marranos repetem  os nomes  de famílias portuguesas que têm  brasão de armas.

  4. Os marranos brasileiros costumavam se valer simultaneamente dois ou três sobrenomes.

  5. Os membros de uma mesma família com frequência  utilizavam sobrenomes  totalmente diferentes entre si.

  6. Depois de duas ou três gerações encontramos, muitas vezes, cristãos-novos adotando novamente os sobrenomes dos avós.

  7. Sobrenomes marranos são exatamente os mesmos   sobrenomes utilizados pelos cristãos-velhos.

  8. Marranos que viviam na Holanda, Norte de África, Levante e devolvidos ao Judaísmo adotaram  muitas vezes nomes hebraicos, mas eles mantiveram  amiúde seus antigos sobrenomes portugueses, uma vez que isso lhes conferiam  certo prestígio.   

 

Referências 



[i] Sobre a "credibilidade" das confissões ver:  I. REVAH e Antonio José Saraiva,

Saraiva, Antonio José, Inquisição e Cristãos-Novos. Ed. Estampa, Lisboa 1985

p.211-291, "Polêmica Acerca da Inquisição e cristãos novos", Novinsky, Anita

[ii] Alguns resultados dessas pesquisas já foram publicados em 

Gorenstein, Lina Ferreira, Héreticos e Impuros ed. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, 1995;

Mizrachi, Rachel Bromberg, Um capitão-mor judaizante, ed. Universidade de São

Paulo, 1984;  Carneiro, Maria Luiza Tucci, Racismo e Preconceito no Brasil

Colonial, ed. Brasiliense, 1988.

 

[iii] Em nomes portugueses ver Távora, D. Luiz de Lencastre,  Dicionário

Das Famílias   portuguesas. Quetza (Lisboa, 1989)

[iv] Novinsky, Inquisição. Cristãos-Novos na Bahia, 2. Ed. Perspectiva (S.

Paulo, 1992)

[v] Novinsky, Anita Cristãos-Novos na Bahia, ibid.

[vi] Sobre "O Livro dos Culpados" (Rol dos Culpados) ver Novinsky, Anita,

“Uma Fonte Inédita para uma História de Brasil”, Revista de História da Universidade de  S. Paulo,
Nº  94, 1973. p. 563-572.

 

[vii] Novinsky, Anita, Rol dos Culpados. Ed. Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1992.

 

[viii] Novinsky, Anita, Prisioneiros Brasileiros na Inquisição ed. Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 2002.

[ix] Távora, op cit pág. 307-308

[x] Guide des Patronymes Juifs, Beth Hatefutsoth, Tel Aviv, 1996, p.110

 

[xi] 11 Wiznitzer, Arnold, Os Judeus no  Brasil Colonial ed. Pioneira. São Paulo 1966

p. 121 

[xii]  Mound Gloria, Distinctive Jewish Family Names in the Balearic Islands of

Spain in A. Demsky, J. A .Reif, J. Tabori (eds) “These are the Names” Vol 1 (1997),

p 65-82.

 

[xiii] Cavaleiro de Oliveira, Recreação Periódica I. Lissabon, 1922. p. 216. XLIV.

 

[xiv] Ibid

 

[xv] Falcão, Armando Sacadura, in Távora, op cit p.12  

Referências

Biografia  

Anita Waingort Novinsky  nasceu em  Stachov, Polônia, passou na infância para o Brasil e naturalizou-se brasileira. Formada em Filosofia, segui carreira acadêmica e é livre docente pela Universidade de São Paulo. Fundadora e presidente do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo  (Lei/Usp).  Professora visitante em diversas universidades como Brown University; Rutgers New Brunschnik; Austin, Texas; “Directeur d’études” na Écòle des Hautes Études em Sciences Sociales et Sciences Religieuses, Paris. Ministrou palestras e seminários na Universidade de Tel Aviv, Israel; Universidade de Varsóvia; Universidade de Waseda, em Tóquio, entre outras. 


Algumas publicações
Inquisição. Cristãos Novos na Bahia. 11ª. Edição. Editora Perspectiva, São Paulo, 2007.

Gabinete de Investigação: uma “caça aos judeus” sem precedentes. Brasil-Holanda, séculos XVII e XVII. Editora Humanitas, São Paulo, 2007.

O Santo Ofício da Inquisição no Maranhão. A Inquirição de 1731. Editora Universidade Estadual do maranhão, São Luiz, Maranhão, 2006.

Inquisição: Prisioneiros do Brasil (séculos XVI-XIX). Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 2002.

Novinsky, Anita e Kuperman, (org) Ibéria Judaica. Roteiros da Memória. Editora Expressão, rio de Janeiro e EDUSP, São Paulo, 1996.

Novinsky, Anita e Carneiro, Maria Luiza Tucci; (org) Inquisição. Ensaios sobre Mentalidades, Heresias e Arte. Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.

O olhar Judaico em Machado de Assis. Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1990.

Inquisição: Inventários de bens confiscados a cristãos novos no Brasil. Editora Imprensa Nacional. Casa da Moeda, Lisboa, 1978.

The Myth of the Marrano Names.

Padre Antônio Vieira, a Inquisição e os Judeus

Revista de História

A nova geração pesquisa a história desse tribunal corrupto

Entrevista com Anita Novinsky

Por Rodrigo Elias

Pioneira na pesquisa sobre a perseguição aos cristãos-novos pela Inquisição no Brasil, Anita Novinsky é referência nos estudos judaicos no mundo luso-brasileiro. Autora de obras que permanecem essenciais na abordagem do Santo Ofício, como a Inquisição: Cristãos novos na Bahia (1970, 1ª edição), a professora livre-docente da Universidade de São Paulo foi desbravadora dos arquivos portugueses sobre o assunto. Nesta breve entrevista, ela avalia a atual produção brasileira e conclui que ainda há muito para se descobrir.

 

REVISTA DE HISTÓRIA A Inquisição é um tema urgente no século XXI?

ANITA NOVINSKY A Inquisição foi uma instituição repressiva, de extermínio, própria de um regime político totalitário. Hoje o mundo sofre ameaças do fundamentalismo, do fanatismo, e isso é preocupante para o futuro da humanidade.  Conhecendo o passado histórico, talvez os homens se conscientizem dos perigos que corremos.

RH O que despertou o seu interesse pelo tema?

AN  Muita gente ignora a presença da Inquisição no Brasil durante 300 anos. Houve prisões, confiscos, tortura e morte de brasileiros inocentes. Dois professores da USP me incentivaram: João Cruz Costa, de Filosofia, e Lourival Gomes Machado, de Sociologia. Os dois diziam que é impossível escrever a História do Brasil sem estudar os cristãos-novos.

RH Percebe algum progresso nos estudos?

AN A nova geração acordou para a necessidade de compreendermos que a História do Brasil foi escrita ignorando a ação de um tribunal de terror, que atuou em todos os níveis da vida brasileira – econômico, social, religioso e cultural. Hoje, em todos os estados, estudantes pesquisam a história desse tribunal corrupto e arbitrário. As novas pesquisas estão trazendo à tona os interesses materiais dos inquisidores.

RH O que, de fato, ignoramos?

AN Tudo ainda está por ser estudado na história da Inquisição no Brasil, que atuou do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Há estados ainda não pesquisados, completamente virgens, como Alagoas. Interessam-nos as relações econômico-financeiras internacionais, a vida clandestina, a resistência, o contrabando, a religiosidade, os cristãos-novos na governança, as blasfêmias de uma população heterodoxa.

 

RH Como a Inquisição afetou a colonização no Brasil?

AN  Afetou, por exemplo, a criatividade da população, ao proibir leituras, críticas, estudos superiores e imprensa. A Inquisição foi responsável, de acordo com o poeta português Antero de Quental, pela decadência dos povos peninsulares.

 

RH O Santo Ofício uniu ou separou os cristãos-novos?

AN Os cristãos-novos foram solidários com os que chegavam sem coisa alguma. Recebiam os fugitivos, os desterrados, a quem davam terras para trabalhar. Muitas vezes a população brasileira se recusou a compactuar com os agentes da Inquisição, o que levou um governador a tomar medidas severas. Durante toda a história colonial, os cristãos-novos mantiveram uma visão do mundo bem diferente da dos cristãos-velhos. 

 




Saiba Mais



CARVALHO, Flávio Mendes. Raízes judaicas no Brasil. O arquivo secreto da Inquisição. São Paulo: Nova Arcádia, 1992.

FAIGUENBOIM, G.; VALADARES, P.; CAMPAGNANO, A.R. Dicionário Sefaradi de Sobrenomes/Dictionary of Sephardic Surnames. São Paulo: Fraiha, 2003, 2004 e 2010.

NOVINSKY, Anita. Inquisição: prisioneiros do Brasil. Séculos XVI-XIX. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2002. 

NOVINSKY, Anita.  Cristãos Novos na Bahia: A Inquisição (1ª ed. 1970  / 2ª edição: 1992 e 2013 -   Editora  Perspectiva) 

WIZNITZER, Arnold. Os Judeus no Brasil Colonial. Tradução de Olívia Krähenbühl. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, Editora da Universidade de São Paulo, 1966
livro pioneiro, mas já superado pelos estudos de Anita Novinsky e discípulos 

NOVINSKY, Anita.  Cristãos Novos na Bahia: A Inquisição (compilações e extratos online) 

WIZNITZER, Arnold. Os Judeus no Brasil Colonial (compilação e extratos online) 

CHABAD-PT: A Formação dos Sobrenomes Judaicos

Os Judeus no Brasil Colonial (Wikipedia)